literatura

Ana Cristina Cesar: plurivocidade e plasticidade poética

Para quem achou que estávamos de férias… sim/não… Janeiro já começo, os trabalhos são retomados e estamos com a iniciativa de colocar recomendações de leitura para diversificar nosso trabalho e retomar a literatura que às vezes esquecemos em função da pesquisa teórica…É importante esclarecer que esta não é uma reflexão teórica, apenas uma recomendação de leitura… 

Sem mais delongas a primeira recomendação é da escritora marginal… Ana Cristina Cesar.

ana cristina césar

Ana Cristina Cesar, ou Ana C., como ela mesma assinava, decide morrer atirando-se pela janela do apartamento dos seus pais (29 de Outubro de 1983). São muitos os estudos e reflexões que tem se debruçado sobre a obra da autora; e, embora existam bos estudos de boa qualidade, sempre se esbarra na mesma questão: seu suicídio. Alguns estudos (e aqui posso estar enganada porque não sou uma especialista, apenas uma leitora de carteirinha de Ana C.), retomam a vida da autora e entrelaçam vida e obra para tentar encontrar uma luz que guie uma leitura mais aguçada dos versos marginais da autora. O que não é inoportuno, entretanto uma reflexão que tome a poesia de Ana Cristina Cesar, o que qualquer outro poeta, para sustentar sua crítica é um tanto superficial e não considera o trabalho plástico que se encontra nos escritos da autora carioca.

Um estudo que merece uma atenção aguçada é o livro Até segunda ordem não me risque nada – Os cadernos, rascunhos e a poesia-em-vozes de Ana Cristina Cesar de Flora Süssekind, publicado em 2007 pela editora 7 vozes.

Nesse ensaio Flora explora a plasticidade e plurivocalidade da poesia de Ana Cristina Cesar, cujo espaço era “cheio de interferências e (…) de constante exílio voluntário em métodos alheios (tradução), linguagens não verbais (pictografia, desenho), diários de bordo (…)” (SÜSSEKIND, 2007, p. 9)

Isso quer dizer que o processo escritural de Ana Cristina Cesar não pode ser visto senão sob um olhar que permita escutar uma polifonia, na qual o “eu” da autora ou do “eu” lírico se vê diluído, o que não quer dizer que não exista um “eu” que fala, mas sim uma diluição das identidades. A diluição das identidades e os constantes exílios podem ser lidos também a partir de uma perspectiva que coloque a loucura como chave de leitura. Aquela que desafia o “poder” de transmitir conhecimento, loucura feita palavra aberta a uma plurificação dos sentidos ou, tomando o caminho inverso, esvaziando a palavra de qualquer sentido, como um esvaziamento das identidades. Como é possível observar na terceira parte de Arpejos:

A crise parece controlada. Passo o dia a recordar o gesto involuntário. Represento a cena ao espelho. Viro o rosto à minha pró- pria imagem sequiosa. Depois me volto, procuro nos olhos dela signos de decepção. Mas Antônia continuaria inexorável. Saio depois de tantos ensaios. O movimento das rodas me desanuvia os tendões duros. Os navios me iluminam. Pedalo de maneira insensata. (CESAR, 2013 p. 26)

 

Não vou me debruçar uma análise aqui, pois não é o caso, apenas gostaria de ressaltar  a dualidade do espelho como chave de leitura desse trecho e de tantos outros da obra de Ana Cristina Cesar. O Eu, Antônia e a palavra como viabilizadora de uma cisão das personas que aparecem na plasticidade da composição poética.

Sem mais faço duas recomendações de leitura para um maior aprofundamento na leitura da poesia de Ana Cristina Cesar:

1)      Até segunda ordem não me risque nada – Os cadernos, rascunhos e a poesia-em-vozes de Ana Cristina Cesar de Flora Süssekind, publicado em 2007 pela editora 7 vozes.

2)      Poética, que reúne a obra de Ana Cristina Cesar, publicada em 2013 pela Companhia das letras.

 

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